Corridas que não são por desporto

Vivo com um peso no peito. Não sei bem de onde vem, nem consigo explicar o que é. Só sei que está cá. Sempre. Não dói como uma dor física, mas incomoda como uma lembrança que nunca desaparece. É como uma pedra que trago dentro do peito, sem saber como lá foi parar.
Ontem esteve um calor daqueles. Afinal, é verão. E, vá-se lá entender porquê, decidi ir correr no fim da tarde. Talvez por teimosia. Ou só porque precisava sair de casa. Não sei bem.
Saí, dei os primeiros passos e senti logo o calor a bater forte. O corpo queria parar, mas continuei. A certa altura tive de parar mesmo, numa fonte, só para beber água. Fiquei ali uns segundos com as mãos nos joelhos, a respirar fundo. Senti o peso outra vez. Não no cansaço das pernas — mas aquele outro, mais fundo. O de sempre.
Quando corro, cruzo-me com tanta gente. Uns passam por mim como se tivessem asas. Outros vou ultrapassando devagar. Cada um com o seu ritmo. E imagino que cada um leva também a sua própria história. A sua luta.
Mas eu… às vezes nem sei se tenho uma luta. Sinto-me mais a vaguear do que a lutar. Há dias em que me pergunto o que estou ali a fazer. O que espero daquela corrida. E a resposta vem sempre da mesma forma: não espero nada. Não corro por uma meta, nem por superação. Eu só corro. Porque sim. Porque o corpo precisa mexer-se, porque a cabeça precisa fugir, porque o silêncio de casa pesa mais do que o silêncio da rua.
Às vezes levo os headphones e deixo a música preencher o espaço. Noutras vezes prefiro ir sem nada. Só a ouvir os sons da rua, os passos no passeio, os carros que passam ao longe, os cães que ladram atrás dos portões. Tudo isso faz parte da corrida. Tudo isso lembra-me que ainda estou aqui. Vivo, sim… embora às vezes deseje não estar.
E continuo a correr, sem saber muito bem porquê. Talvez só para sentir que estou a ir a algum lado.
