Domingo de calor e panquecas por decidir

Saí de casa sem um destino claro. Talvez à procura de ar fresco… ou apenas para enfrentar o calor de frente. Ou então só para não ficar sentado a sentir o peso do que não sei explicar. Há dias assim: o corpo pede descanso, mas o que dói é por dentro. Às vezes, a tristeza disfarça-se de sono.
Entrei num café. Nada de especial, só queria um café cheio e alguns minutos de pausa. A fila avançava devagar. Pedidos elaborados — café com isto, bolo daquilo, leite vegetal, chantili à parte. Eu só queria algo simples, um café cheio.
Pedi, paguei, esperei. Atrás do balcão, duas empregadas trocavam palavras apressadas. Um cliente tinha levado o pedido errado. O meu café lá saiu da máquina, quente e sem cerimónias. Peguei nele e fui sentar-me numa mesa junto à janela.
Ali fiquei, a olhar para fora como quem procura qualquer coisa que não sabe bem o quê. Fingia que lia notícias no telemóvel, enquanto dava pequenos goles para que o café durasse mais um pouco. À minha frente, um senhor estava sentado. Chega uma senhora com um prato na mão — panquecas, diz ela, com bacon e mais qualquer coisa que já não recordo. Começa a insistir que aquilo dava perfeitamente para um almoço. Ele pouco falava. Apenas pequenos gestos ou expressões que diziam mais do que palavras. Não lhe apeteciam panquecas.
Ela continuava. Panquecas para o almoço. E eu, de canto, pensava: quantos relacionamentos se resumem a isto? Um quer panquecas, o outro só queria sossego. Mas em vez de perguntar, insiste. Talvez bastasse um “Queres panquecas para o almoço?” — e aceitar o “não”. Era domingo. E às vezes só apetece algo diferente, como um prato especial.
O café estava amargo, sem açúcar é assim que eu gosto. Dei o último gole. Olhei para o fundo da chávena, para as borras. Há quem diga que se pode ler o futuro ali. Eu só vejo borras, não consigo ver o meu futuro, se for da cor das borras não é lá muito bom. Parece coisa tirada de um livro do Harry Potter.
Levei a chávena ao balcão. E voltei para o calor.
