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Merlo

Merlo

Qui | 24.07.25

E eu só queria sair dali

Marco

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Entro pela porta meio de lado, quase a pedir desculpa. O passo é rápido, o coração vai ainda mais depressa. Tiro a senha, olho o número. 110. Levanto os olhos para o ecrã. Está no 52. Estremeço.

Já passaram 15 minutos da hora. Tinha trinta para chegar. O trânsito não ajudou, mas mesmo que tivesse ajudado… será que isso mudava alguma coisa?

Fico de pé, quieto por fora, mas a borbulhar por dentro. Sei como funciona este lugar, às vezes bastam 10 senhas para perder a vez. Hoje faltam mais de 60. Começo a perder a esperança.

Vejo um lugar livre e sento-me, num gesto de rendição. Os números mal se mexem. As pessoas à minha volta suspiram, reclamam. Parece que toda a sala partilha o mesmo ar pesado, a mesma impaciência.

Olho para o relógio. A hora da consulta já passou. Dez minutos. A culpa não é minha, mas sinto-a assim mesmo. Pedi para sair do trabalho. Estou a falhar. Estou a mais aqui e lá.

Levanto-me devagar, como quem não quer incomodar, e aproximo-me do balcão. Explico, quase a sussurrar, que a minha consulta já devia ter acontecido. A senhora, com um sorriso vazio, diz que houve um problema informático. Tudo atrasado. Tenho de esperar. Mais ainda.

Volto a sentar-me. Desapontado. Triste. Sem saber porquê, mas sentindo que não devia estar ali. O 86 pisca no ecrã. Ainda falta.

Passa o tempo. Já nem sei quanto. Sinto a ansiedade crescer como um nó na garganta. Tiro o cartão de cidadão. Quero estar pronto. Só para não atrasar mais ninguém.

Chamam-me. Finalmente. Levanto-me depressa demais. O gabinete é o 25, mas só vejo o 33. Corro, tropeço nos números, nas portas. Encontro a certa. Está entreaberta. Espreito. Pergunto. Entro.

Quando saio, respiro fundo. Vou à máquina pagar o estacionamento. Enfio a nota de 10€. Ela cospe-a. Tentei de novo. Nada. Sinto o desespero. Não tenho moedas.

Vou até à outra máquina, lá dentro. Caminho mais um pouco. Coloco a nota. Desta vez aceita. Dá-me um monte de moedas como troco. É o que há. Pelo menos posso ir embora.

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Quando estou quase a sair, vejo-os. Parados ali, no meio do cinzento, quase mágicos: um grupo de perdizes. A mãe e os filhotes. No meio do estacionamento. Sem pressa. Felizes.

E ali, por um segundo, tudo o que era peso desaparece.

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