Entre motores e silêncios

A rua é estreita. Vou de bicicleta, sem pressa e sem destino. Só quero pedalar, sentir o corpo a mexer, e limpar a cabeça. Mas há dias em que o que irrita não é o trânsito, são as pessoas que atrapalham o meu ritmo.
À minha frente, uma mota. Um casal. Ele vai a conduzir, ela agarrada atrás. E o motor? Sempre a ser moído, a roncar sem avançar. Aquilo não faz bem à máquina, mas pronto, problema dele. Já tem idade para saber o que anda a fazer.
Aproximo-me, com calma. Sei que uma mota anda mais do que uma bicicleta, por isso respeito. Mas o chão está uma miséria, cheio de buracos e remendos. É um cruzamento apertado. E ele ali, sempre a dar ao acelerador, sem sair do sítio. Começo a perder a paciência.
Faço uma primeira aproximação. Percebo que ele me tenta fechar o espaço, como se eu não tivesse o direito de passar. A rua é apertada, sim, mas dá para os dois. Só é preciso bom senso.
Na primeira oportunidade, avanço. Passo por ele como um ninja, rente, tão colado que, se quisesse, sentia o perfume da namorada. Não era para ser assim, mas ele obrigou. Se estivesse mais encostado à direita, como devia, passava com espaço. Mas enfim... passei.
Quando me vê à frente, já era tarde. Já lá ia. Ainda me mandou uma buzinadela, talvez chateado, talvez picado no orgulho. Eu só levantei a mão e fiz-lhe um “hang loose”, como quem diz: calma, pá. Isto não é uma corrida.
Segui entre os carros, leve, solto. Porque no fundo, só quero pedalar. Sem pressas, mas sem que me cortem o caminho.
