Nem todas as noites são iguais

Há noites normais: jantas, ligas a televisão, vês qualquer coisa só para matar o tempo enquanto esperas que o sono te venha buscar — ou talvez algo mais.
Mas esta foi diferente.
Saí para andar de bicicleta. Ainda havia luz, estamos em horário de verão. Mas rapidamente escurece. Já houve tempo em que a escuridão me metia medo — medo do que escondia, do que podia surgir. Hoje, se a escuridão vive em mim há tanto tempo, por que razão haveria de a temer cá fora?
Pedalo por ruas mal iluminadas. Alguém grita ao longe, sem razão aparente. Há quem esteja tão bêbedo que mal se aguenta de pé. Carros passam depressa, como se fugissem de si próprios. E eu sigo, com os pensamentos aos tropeções, à procura de um sítio especial.
Um lugar mágico.
Sei exatamente onde fica. Já lá estive. Lembro-me da primeira vez que o vi — foi numa fotografia. Fiquei obcecado. Havia qualquer coisa naquela imagem que me puxava. Procurei na internet, vasculhei mapas, tentei perceber onde era. A única pista era uma ponte ao fundo, e o ângulo da fotografia.
Analisei tudo. Quis decifrar o mistério. E um dia, por acaso, só porque mudei de caminho, encontrei-o. Como se tivesse tropeçado num segredo que o mundo tinha guardado só para mim.
Fiquei encantado.
Agora, sei exatamente onde é. Posso lá voltar sempre que quiser.
E há algo de bonito nisso: saber que, no meio do caos, há um lugar onde posso simplesmente… estar.
