Senha 119

O despertador tocou com aquela brutalidade que só ele sabe. Alto, seco, sem cerimónias. Hoje não deu para negociar mais cinco minutos de almofada. Não houve margem. Era levantar e seguir.
Tomei banho meio a dormir, a água a tentar lavar o sono que se recusava a sair. Escolhi a roupa sem pensar muito. Hoje não havia pequeno-almoço nem direito a hesitações. O carro estava longe e, ironicamente, o dia começava com ele.
Pelo caminho, liguei o Waze. Não porque não soubesse o percurso, já fui ali vezes demais, mas porque há dias em que só quero seguir instruções, sem ter de pensar. Deixar que alguém, mesmo que seja uma voz robótica, me diga o que fazer.
Cheguei, tirei o ticket, a cancela abriu-se. Entrei. Estacionei num canto qualquer. Ao sair, reparei num jipe, meio atravessado no separador inclinado. Caiu ali? Foi deixado? Destravado? Não faço ideia. Já havia gente em volta, e eu, confesso, não tinha espaço mental para mais uma aflição, o caso estava controlado.
Entrei. Aquelas portas automáticas abriram-se como quem me diz "força, é só mais uma vez". Tirei senha. Número 119. Ia no 87. Suspirei, longo.
Fiquei em pé, sem saber bem para onde olhar. As pessoas passavam. Umas queixavam-se alto, outras sorriam sem vontade, outras tentavam meter conversa como quem tenta furar o peso do ar. Eu só queria desaparecer. Ou, no mínimo, sentar-me.
O tempo não passava. Ou passava devagar só para me irritar. Pedi no trabalho um bocadinho para estar ali. E estar ali, parado, só me fazia sentir culpado. Ansioso. Cansado. Quase me vinham as lágrimas. E nem era tristeza. Era só… saturação. Aquela sensação de "para quê?".
Procurei o cartão de cidadão para despachar a coisa quando fosse chamado. Mexi na carteira e, distraído, tirei o cartão de refeição. Segurei-o com confiança, como quem acha que tem tudo sob controlo.
Chamam o meu número. Balcão 3.
Lá fui, com aquele sorriso automático que se liga quando o corpo está em piloto. Entrego o cartão com toda a certeza do mundo… e percebo que estou a dar o de refeição. A senhora do balcão não serve almoços. Fiquei tão atrapalhado que quase pedi desculpa em três línguas. Mergulhei o braço ao bolso à procura do verdadeiro. Entreguei-o com mãos trémulas, como quem entrega um bocadinho de si também.
Ela olha para o computador. Eu só queria ouvir "pode entrar". Mas o destino tinha mais um "aguarde um momento, por favor". Saí dali, fui para o corredor. Ar mais pesado. Um lugar vazio. Sentei-me, já farto de estar em pé e de estar ali, naquele limbo de gente que espera sem querer esperar.
Puxei do telemóvel. Tentei distrair-me. Uma senhora sentou-se ao meu lado. Perguntou-me qual era o número dela. Ao início nem percebi bem. Disse-lhe que era o 147. Ainda faltava.
Sempre que ouvia aquele som do visor a mudar o número, levantava os olhos com esperança. Mas não. Ainda não era o meu momento.
Quando o número dela se aproximou, avisei que faltavam três. Sorriu. Um daqueles sorrisos cansados, mas gratos.
Finalmente chamam-me. Entro, faço o que tinha a fazer. Saio dali a voar, nem olho para trás. Pago o estacionamento. O jipe do separador já não está. Alguém resolveu. Talvez.
Sigo para o carro. Ainda tenho um dia de trabalho pela frente. Vou sair mais tarde por causa disto tudo.
Mas talvez, só talvez, amanhã seja um dia com mais margem.
