Entro pela porta meio de lado, quase a pedir desculpa. O passo é rápido, o coração vai ainda mais depressa. Tiro a senha, olho o número. 110. Levanto os olhos para o ecrã. Está no 52. Estremeço. Já passaram 15 minutos da hora. Tinha trinta para chegar. O trânsito não ajudou, mas mesmo que tivesse ajudado… será que isso mudava alguma coisa? Fico de pé, quieto por fora, mas a borbulhar por dentro. Sei como funciona este lugar, às vezes bastam 10 senhas para perder a vez. (...)
Vivo com um peso no peito. Não sei bem de onde vem, nem consigo explicar o que é. Só sei que está cá. Sempre. Não dói como uma dor física, mas incomoda como uma lembrança que nunca desaparece. É como uma pedra que trago dentro do peito, sem saber como lá foi parar. Ontem esteve um calor daqueles. Afinal, é verão. E, vá-se lá entender porquê, decidi ir correr no fim da tarde. Talvez por teimosia. Ou só porque precisava sair de casa. Não sei bem. Saí, dei os primeiros (...)
Não sei se algum dia te vou contar. Talvez nunca. A verdade é que a distância entre nós cresceu devagar, quase sem dar por ela, até se tornar este vazio que já nem sei como preencher. Às vezes penso que ainda existimos um no pensamento do outro. Outras vezes, tenho a certeza de que só eu fiquei aqui, preso a algo que só eu senti por inteiro. Escrevi-te tantas vezes. Mensagens curtas, longas, confusas. Algumas ficaram guardadas, outras apaguei ainda antes de terminar. Todas (...)
O dia começa. Já há muito que andava a pesquisar sobre este lugar. Olho para mapas, imagens, artigos... já o conheço sem nunca lá ter ido. Porquê? Não sei bem. Mas depois, quando finalmente chego, fico sempre com aquela sensação de déjà vu. Como se já lá tivesse estado noutra vida. Sei os pormenores, reconheço os sítios. É estranho. Isto acontece-me muitas vezes, com locais, situações, até pessoas. Acho que é por pesquisar tanto antes, para me sentir mais seguro, e (...)
O despertador tocou com aquela brutalidade que só ele sabe. Alto, seco, sem cerimónias. Hoje não deu para negociar mais cinco minutos de almofada. Não houve margem. Era levantar e seguir. Tomei banho meio a dormir, a água a tentar lavar o sono que se recusava a sair. Escolhi a roupa sem pensar muito. Hoje não havia pequeno-almoço nem direito a hesitações. O carro estava longe e, ironicamente, o dia começava com ele. Pelo caminho, liguei o Waze. Não porque não soubesse o (...)
A rua é estreita. Vou de bicicleta, sem pressa e sem destino. Só quero pedalar, sentir o corpo a mexer, e limpar a cabeça. Mas há dias em que o que irrita não é o trânsito, são as pessoas que atrapalham o meu ritmo. À minha frente, uma mota. Um casal. Ele vai a conduzir, ela agarrada atrás. E o motor? Sempre a ser moído, a roncar sem avançar. Aquilo não faz bem à máquina, mas pronto, problema dele. Já tem idade para saber o que anda a fazer. Aproximo-me, com calma. Sei que (...)
Final de tarde. O calor ainda aperta, mas decido sair para correr. Sem grandes planos, só eu, o corpo e o que vier. O lugar é calmo. Programo o relógio, coloco os headphones. Começa a contagem. O primeiro quilómetro custa — tudo dói. As pernas, a respiração, a cabeça cheia de dúvidas. "Por que raio estou a fazer isto?", penso. Mas insisto. Sei que é só até o corpo ceder. E então cedo. Entro no automático. Os pensamentos silenciam-se. Corro. Só isso. Pelo caminho cruzo-me (...)
Há noites normais: jantas, ligas a televisão, vês qualquer coisa só para matar o tempo enquanto esperas que o sono te venha buscar — ou talvez algo mais. Mas esta foi diferente. Saí para andar de bicicleta. Ainda havia luz, estamos em horário de verão. Mas rapidamente escurece. Já houve tempo em que a escuridão me metia medo — medo do que escondia, do que podia surgir. Hoje, se a escuridão vive em mim há tanto tempo, por que razão haveria de a temer cá fora? Pedalo por (...)
No metro, a caminho de casa, os dias continuam quentes. O ar condicionado está ligado, mas mal se nota — parece que sopra calor em vez de fresco. Entro na carruagem e, por sorte, vejo um lugar vago. Dirijo-me para lá. Raramente há lugares sentados, costumo ir de pé. Passamos por uma estação que, há uns tempos, era onde saía antes de seguir para casa. Agora já não. Fico ali, imóvel, a caminho de casa. Às vezes com um aperto no peito — mas sigo. Observo o que me rodeia. (...)
Saí de casa sem um destino claro. Talvez à procura de ar fresco… ou apenas para enfrentar o calor de frente. Ou então só para não ficar sentado a sentir o peso do que não sei explicar. Há dias assim: o corpo pede descanso, mas o que dói é por dentro. Às vezes, a tristeza disfarça-se de sono. Entrei num café. Nada de especial, só queria um café cheio e alguns minutos de pausa. A fila avançava devagar. Pedidos elaborados — café com isto, bolo daquilo, leite vegetal, (...)